Monte Mundico
Monte Mundico · Parque Nacional Monte Roraima, Roraima, Manalai, Brasil
Classificação do percurso
Pesada
Como registrado na fonte: Pesada
- Data da conquista
- 31 de março de 2011
- Percurso
- —
- Duração
- —
- Desnível
- 10.216 m (+) / 10.065 m (−)
Fotos
Tracklog do percurso
Baixar Tracklog- Distância
- 119 km
- Ganho
- 10.216 m
- Perda
- 10.065 m
- Altitude mín.
- 802 m
- Altitude máx.
- 1.667 m
Perfil de elevação
O percurso
Transcrevo o excelente texto de Ângela relatando a nossa aventura:
A aventura começa com os vôos de Cesna 206 de Boa Vista para a maloca Manalai. Uma aldeia pequena, cercada de serras e florestas. Todos os dias amanhecíamos envoltos pela neblina e com tudo coberto de orvalho. O banho gelado no rio Panari e a participação na festa da Aleluia também fizeram parte do programa. Nos 3 primeiros dias da expedição ficamos na aldeia e participamos de várias celebrações: casamentos, batizados, formaturas, e muito Aleluia!! Aleluia é a religião deles, um sincretismo de cerimônias, cantos, danças que me encantaram pela simplicidade e beleza. O tempo para eles é diferente, tem outra dimensão, e nos dias de festa era Aleluia o tempo todo...festa, dança e muito caxiri (bebida fermentada feita com o suco da mandioca brava). Eu adorei os cantos do Aleluia, eles acreditam na reencarnação, e cantam que estão no ciclo, em busca do banho de luz. A dança é feita em círculos, e a música é um mantra. Não é preciso tomar caxiri para “viajar”, se transportar e sentir uma grande paz naquele lugar. No último dia da festa, o tuxaua (chefe da tribo) escolheu alguns índios para nos acompanhar na expedição, eles seriam nossos guias e carregadores. O problema era só que nenhum deles conhecia o caminho....pior, não tinha caminho, apenas as tradições orais dos índios e nossas coordenadas geográficas!! Na trilha levantávamos cedo e tínhamos de parar cedo, pois montar o acampamento era bem demorado: achar lugar com água, desmatar, limpar, montar a estrutura para colocar as lonas e amarrar as redes, fazer fogueira (mesmo com tudo molhado!), e de preferência ainda com luz. Além dos índios tínhamos mais um guia e um mateiro. O grupo tinha ao todo 13 participantes (4 mulheres) e mais 14 índios ingarikós. Passamos por vários problemas previstos e vários imprevistos. Dentre os previstos muito, muito, muito, muito perrengue mesmo!! Travessia de rios, floresta fechada, abrir caminho na raça com os terçados (facões), e muita água: suor de dia com o esforço físico, chuva pra acompanhar, e durante algumas noites mais chuva para perturbar e molhar tudo! Mas não era isso mesmo que a gente queria??? Pois é...divertido mesmo era com esse perrengue todo ouvir as histórias de mulher de um dos colegas e falar de comida! Passar frio e faltar comida foram alguns dos “imprevistos”, além da constante discussão sobre o caminho a seguir, pois os índios apontavam pra um lado e o GPS pra outro!!! Os índios com suas tradições orais, alguns nem falavam português, e a gente tentando achar um meio termo, pois dependíamos deles, e estávamos em seu território. Foram cinco dias de avanço rumo à serra do Caburaí. No terceiro dia encontramos o marco BG 10, divisa do Brasil com a Guiana. Depois disso a gente já não sabia mais se estava do lado de cá ou do lado de lá da fronteira...foi muito sobe e desce de serra. No quinto dia chegamos ao cume de um monte que batizamos de monte Mundico (1.642m), o nome do índio, pajé, que estava nos guiando. Como estávamos num ponto mais alto que o Caburaí (1.465m) tentamos avistá-lo, mas foi impossível, a selva é fechada por todos os lados, nada de vista, e na maior parte do tempo nada de ver o sol! Pelas nossas estimativas ainda teríamos que descer essa serra e com sorte subir a próxima, que talvez fosse o Caburaí (se acertássemos a direção). Acho que precisaríamos de mais uns dois dias pelo menos para alcançar nossos objetivos – a coordenada geográfica do extremo norte do Brasil e o cume do Caburaí. Mas tivemos que avaliar nossas condições, alguns colegas muito cansados ('wekenepanza' pra caramba virou quase um hino), pouca comida, muita discussão sobre o caminho, e os índios disseram que não seguiriam mais...resultado, não tínhamos condições de seguir em frente e era preciso retornar! Essa decisão deixou a maioria do grupo muito revoltada. Afinal, é muito esforço – treino, equipamento, viagem, estudos, família, e muito investimento em sonhos e expectativas que foram frustrados. Não é fácil, mas de qualquer forma fica um grande aprendizado, tanto na organização da expedição quanto na convivência com os colegas e com os índios. Na volta, já começamos a contabilidade da viagem – várias unhas caídas, vários bichos de pé, alguns pegaram também pulga e piolho!!!!!!! Imaginem, levamos parte da fauna local...ainda bem que não fomos multados. No conforto de casa fica muito mais fácil dar risadas e esquecer os perrengues. O sonho permanece, e tomara que sejamos ‘o grupo’ a realizar esta conquista daqui a um tempo.
